sábado, 17 de agosto de 2013

Pérola


 

 

Pobre molusco indefeso

Geme no fundo do mar

Da dor que tem de passar

Por um grão de areia preso

 

Aquele grão sem valor

Dentro da concha carrega

Tentando envolver a pedra

Para livrar-se da dor

 

Não sabe que o sofrimento

Que tem a todo momento

Já tem seu fim programado

 

É certo que irá alguém

Tirar a pedra que tem

Pra ter a gema formada

 

J. G. Ribeiro

Imagem: Google

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Aline


 

 
Dia dezesseis Aline nasceu

Às oito e quarenta a hora legal

Moinhos de Vento foi o hospital

E no mês de março ela apareceu

 

Dois mil e nove foi o belo ano

Deus nos mandou este lindo presente

Por trás de um vidro surgiu de repente

A mais recente herdeira que eu já amo

 

Que Deus a abençoe por todos os dias

Seja bem-vinda com muita alegria

Que a sua saúde seja eficaz

 

Que os anjos estejam sempre consigo

A livrem do mal e todo perigo

Que em seu coração habite só paz
 
J. G. Ribeiro
 
 
 

terça-feira, 23 de julho de 2013

Infantaria




És tu das Armas os extremos e o meio
Pois é a ti que cabem os louros da vitória
Sibilam balas e as granadas trazem glória
Desentrincheras o inimigo sem receio

És conhecida pelo canto das metralhas
E pelo arrojo que teus homens devem ter
Cai o perigo ante a tua sede de vencer
Te perpetuas lá nos campos de batalhas

Por isso a ti o meu trabalho dediquei
Dificuldades muitas vezes já passei
Mas te escolhi e fiz de ti a vida minha

Tenho orgulho de estar na Infantaria
Sem vacilar eu outra vez a escolheria
Pois ela é nobre e ante às Armas é Rainha


J. G. Ribeiro

Imagem: Google

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Desejo


Vivo um conflito aqui bem dentro do meu peito
De ver-te ao longe sem sequer poder te amar
Meu coração de dor se joga ao leito feito
Buscando forças para um dia te encontrar

Quero envolver-te no calor dos braços meus
Em teus cabelos quero tanto me enrolar
Pedir a Deus que me conceda um beijo teu
Na eternidade quero tempo pra te amar

Dos sonhos teus quero fazer os sonhos meus
Nos pensamentos ter os pensamentos teus
E na tua alma abrandar a minha dor

Voar no céu de infinito a infinito
Deixar o eco do meu poderoso grito
E um canto novo solfejar ao nosso amor



J.G.Ribeiro
Imagem: Google

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Diz que...




Diz que o verdadeiro amor
Existe aqui sim, senhor!
Não só em conto de fada.
Amor é dedicação
É ofertar seu coração,
Sem nunca lhe pedir nada.


Diz que verdadeiras obras
Não são esmolas nem sobras
Que dou a quem tem escasso.
Fraternidade de fato
É a maneira como eu trato
Meu irmão, dando um abraço.


Diz que o verdadeiro santo
Não tem cetro, auréola e manto.
Nem é aquele que mais reza,
Mas com amor aconselha
Trabalha que nem abelha
E seu próximo mais preza.


Diz que o verdadeiro poeta
Não é santo nem profeta
Operário ou artesão.
Poeta é amante da poesia
Que traz vida e alegria
Pondo amor no coração.

W. F. Aquino

Imagem: Google

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Flor da Alma


Buscando a fresta dos teus fui entrando
E bem no fundo da tua alma encontrei
A mais bonita e pura flor desabrochando
De uma semente que um dia eu plantei

E a flor criou tantas raízes de repente
Nas profundezas do teu nobre coração
Tornando até a minha alma mais contente
Fazendo desaparecer a solidão

Enquanto era alimentada esta flor
Meu coração ficou repleto de amor
Mas noutro dia a flor secou depois morreu

Então o amor saiu e nem se despediu
Sem dizer nada simplesmente ele partiu
Ficando só a solidão saudade e eu

J. G. Ribeiro

Imagem: Google

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Enamorados



Vem a lua despontando no horizonte
Traz com ela sua família estelar
Vai o sol se escondendo atrás do monte
Se afastando pra lua poder brilhar

De mansinho a noite escura vem chegando
E as estrelas salpicando o negro céu
Vai a lua lá no mar se espelhando
Com o seu vestido branco como véu

Mil paixões são despertadas na noitada
Inspirando seus casais apaixonados
Que extasiados vagam em um só espaço

Bem juntinhos sob a proteção da lua
Aproveitam a iluminada rua
Um novo beijo um suspiro e um abraço


J.G.Ribeiro

domingo, 9 de junho de 2013

Ao poeta












 

Quais os teus sonhos, poeta,
Que a divagar andas
Na calçada da vida,
Tal qual malfadado andarilho
Buscando compreender o tempo,
E já não te aquietas a contemplar a aurora?

Quais tuas quimeras, poeta,
Que poetando andas a percorrer estrelas,
Que nos teus olhos meigos e doces,
Já não escondes a névoa dos desenganos?

Que utopias carregas, poeta,
Que as pequenas epifanias,
Não são mais suficientes,
Para abocanhar-te os dias?

Cabisbaixo andas, poeta,
Sensível ao mundo à tua volta,
Já choras baixinho escondido,
Querendo perdoar o tempo.

Que guerra injusta, poeta!
Que bélicos tão poderosos a tua volta!
E tu com tua fala mansa,
Teus passos lentos e cansados,
Já não passas tardes,
Empinando quimeras ao vento.

Poeta, a vida é guerra diária,
E nela bravo guerreiro
Extraia a fórceps teus sonhos,
Grita tua dor, expõe teus anseios.

 A guerra não é perdida, poeta,
Sorve o tutano do dia,
Mostra tua arma, mostra tua força,
Arranca da alma a palavra,
Empunha a palavra, poeta,
Traduze-a em pura poesia.

Gladys Giménez

Imagem: Google

quinta-feira, 6 de junho de 2013

O mar e a praia


Mal amanhece vai o mar se agitando
Formando as ondas para a praia alcançar
Vai com seus braços na areia penetrando
E se firmando para a praia abraçar

O dia inteiro fica ele se bailando
E tanta gente nele entra a se banhar
Ao fim do dia suas forças vão faltando
Vai precisar de outro dia pra voltar

Mas não desiste e toda a noite ele descansa
Formando espelho com as suas águas mansas
Para que possa a linda lua se espelhar

Dorme tranquilo sob o terno olhar da lua
Vai relembrando a noite inteira a paixão sua
E no outro dia a praia toda quer beijar

J. G. Ribeiro

Imagem: Google

domingo, 2 de junho de 2013

O amor é eterno


Com a ausência das pessoas que amamos não há saudade que passe.
Mas essa saudade é amor, e isso nos dá ânimo para continuar vivendo.
Assim, mesmo que algo tenha se quebrado dentro de nós e esse espaço tenha ficado vazio, nos sentimos recompensados por saber que amamos e fomos igualmente amados.
  Com a fé nos conformamos porque chegará um dia que também seguiremos o mesmo caminho, e com a certeza de que o verdadeiro amor nunca morre, tornamos a sorrir e assim ganhamos um novo alento para continuar sobrevivendo.
E ao contemporizar, chegamos à conclusão de que não é o tempo que passa depressa, somos nós que passamos por aqui...

Helio Rohten
Imagem: Google


quarta-feira, 29 de maio de 2013

CÉU

 

Dia de sol nuvens pairando pelo ar
Tentando formas para nos apresentar
Num lindo céu azul todo pintado ao fundo
Com belas esculturas se mostrando ao mundo

Mas se prestarmos atenção nos seus detalhes
Formas perfeitas que vão se entregando aos ares
Ficam visíveis por apenas algum tempo
E vão se desfazendo pela ação do vento

Assim que o sol vai de mansinho se escondendo
As novas esculturas vão aparecendo
E vai se transformando o visual do dia

Nem toda hora o céu é tão bonito assim
Como se fosse um espetáculo só pra mim
Numa graciosa e pura aula de magia


J.G.Ribeiro

Imagem: Google

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Gotejando



Tem uma goteira em cima da minha cama. Não é bem em cima dela, fica nos pés. Quase fora. Mas quando chove forte eu tenho que afastá-la da parede. Eu não ligo muito, pois faz tempo que não chove. Entretanto pela carranca das nuvens que vejo pela janela, a cama estará molhada à noite. Isso não chega a ser lá uma preocupação. Quando você toma conhecimento do que preocupa as pessoas ao teu redor, uma goteira não é tanto problema assim.

Não que eu seja uma pessoa comunicativa e sociável a ponto de as pessoas me contarem suas preocupações, bem pelo contrário. As pessoas do meu meio social mal me cumprimentam. O fato é que eu tenho digamos que uma faceta, ou melhor, um dom. Um dom, gosto de pensar dessa forma. Eu leio expressões. E modéstia à parte com uma média de acerto de dez para dez. No início isso me afetava. Imagine na minha rotina diária tenho a possibilidade de ver muitas pessoas, e as impressões que cada uma deixava em mim eram tão profundas quanto cortes de navalha nas mãos de um barbeiro bêbado. Sem querer eu sacava tudo o que havia por traz de um sorriso, um bom dia, uma cara fechada, um flerte. Depois de um tempo consegui relaxar, eu enxergava o que havia realmente por trás das expressões das pessoas, e com a frieza que me é típica eu me divertia um pouco com isso e depois esquecia, como que guardando um livro lido em uma estante. É meio sem querer, não exige concentração alguma. Eu te olho e vejo atrás dos teus olhos. Isso mesmo, bem exposto. Dessa forma vi o quão frágil somos e quão cínicos temos a necessidade de ser, e o quão sujo podemos nos tornar.

Para compreender melhor, pelas pessoas que vi nesta manhã eu sei que a professora de matemática sisuda e autoritária que passa por aqui todas as manhãs, tem fetiches sadomasoquistas com direito a mordaça, chicotes e perfuração de agulhas. Sei que nosso estagiário cospe no café de todo mundo que lhe pede para trazer café, tem o pediatra que toma anfetaminas todas as manhãs com conhaque, a moça que vende doces e acha que está grávida, acha que vai abortar porque acha que o filho pode ser do seu padrasto. Vejo o advogado que está sempre sorrindo, mas sempre vai pra casa com a certeza de que chutará o banquinho e se entregará à Dança do Judas Arrependido. O motorista gentil que gosta de bater na mulher e depois colocar a culpa no trabalho. Tem o bacana que espia a filha no banheiro e depois procura o sexo de garotos franzinos. Pouca coisa para aproveitar, quase não me surpreende.

Tem também as pessoas que eu vejo agora, neste momento. Eu sei que a senhora idosa que vem pegar jornal velho está comendo somente macarrão instantâneo há dois meses. Ela vive sozinha com 75 cães, a ração dos cães nunca falta, ela não fala com quase ninguém. Gosto dela. O porteiro está com câncer no pâncreas. Nunca bebeu, nunca fumou. Religioso fanático. Decidiu não sorrir mais. E tem a garota de cabelos curtos e bagunçados, com um grampo de cabelo vindo direto dos anos 80 prendendo a franja, ela sempre aparece aqui, gosta de ler H.G. Wells. O que sei dela é que eu a faria chorar bem menos, e ela me faria sorrir bem mais.

Ai você pode perguntar: – Tá e por que você não faz algo útil com esse dito “dom”? Você poderia salvar suicidas, denunciar pedófilos, libertar oprimidos, você poderia ser algum tipo de herói, poderia ser um divisor de águas na psicanálise e psicologia. Faria Freud virar de bruços no caixão.

Bem, eu até poderia. Mas não faço nada. Tem aquela fabulazinha dos dois lobos dentro de cada homem, o lobo bom e o lobo mal, e vence aquele que você alimenta mais. Digamos que agora eu tenha só um lobo dentro de mim, e embora às vezes ele balance o rabo e dê a patinha eu não ouso lhe estender a mão. E além do mais eu sou só um bibliotecário. Preencher as fichas e organizar os livros largados nas mesas e devolvê-los aos seus devidos lugares nas estantes é o máximo que me permito fazer por essas pessoas. Confesso que às vezes sou tentado a fazer algo por alguém, mas seria apenas para a garota de cabelos bagunçados. Ela cria duas covinhas nas bochechas quando sorri. O fato é que não tem nenhum lobo dentro dela e temo apresentá-la ao meu.

Ok, eu pareço agora um cara egoísta que não liga pra nada, na verdade eu ligo e estou até preocupado porque as nuvens carrancudas lá fora agora choram um dilúvio bem do jeito que a goteira lá de cima da cama gosta. Acho que hoje vou ter que dormir no sofá.

Fábio Vinicius

Imagem: Google

domingo, 19 de maio de 2013

Alma Fria


Coloquei no meu baú um pouquinho de sol
Para aquecer as minhas noites de frieza
E a tua voz eu coloquei num caracol
Para escutar-te em minhas horas de tristeza

Amargurados são os dias da minha vida
Fazem chorar meu coração de amor por ti
Escuras noites em tormentos embebidas
Longos gemidos de tanto chorar por ti

De ti preciso pra contigo me aquecer
Senão minha alma congelada vai morrer
A noite fria gangrenou meu coração

Só teu amor pode manter a chama acesa
Pra me aquecer e acabar minha tristeza
Alimentando eternamente esta paixão

J. G. Ribeiro

Imagem: Google





quarta-feira, 15 de maio de 2013

O Sonho do Velho Avião



O dia amanhecera cinzento.
Perfilado no centro da pista, o velho avião espera pacientemente para decolar. Com o coração aos saltos, ele mal pode controlar sua ansiedade, pois ouviu o comandante dizer que este seria seu último voo.
- Vou provar a eles que estão enganados, pensou o velho avião, mirando a linha do horizonte, como fizera muitas e muitas vezes.
Potência máxima.
 O ronco do avião ecoa pelos ares. Vorruuuuuuummmmmmmmm… A velha máquina  range e estala freneticamente, e aos poucos, o velho bimotor se desprende do solo. É só uma questão de segundos, e  ele alcança os ares. Pronto! Agora nas alturas, pode relaxar. Abre suas asas ao máximo como se fosse uma grande e prateada fragata e deixa-se planar, planar, planar… embalado mais uma vez, pela juvenil algazarra dos passageiros rumo à cidade de Orlando na Flórida.
Dia após dia, noite após noite…
A um canto do aeroporto o velho e esquecido avião, que outrora resplandecia ao sol com sua belíssima inscrição em azul, hoje não passa de um amontoado de ferro velho carcomido pelo tempo.
Mas o velho sonha! Sonha com os risos fartos das crianças, com as alegrias das chegadas e com as lágrimas de despedidas.
Quando a tesoura mecânica penetra na fuselagem do velho avião, arrancando-lhe os pedaços, ele  continua inabalável com o olhar fixo no horizonte, pois há muito tempo sua alma de avião ganhou os ares, e lá permanece, levando outras almas para paraísos distantes de risos e de alegrias.   

Jandira Weber
Imagem: Google 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Mar sem Luar















 
A leve brisa que escultura a fina areia
Sem o olhar da majestosa e bela lua
Quer se esconder dentro da noite fria e nua
Que espreita o mar sem o clarão da lua cheia

Agita o mar a espumante água fria
Que insatisfeita com a sua ira chora
Vai colocando as suas ondas para fora
A noite inteira até que chegue um novo dia

Enquanto a sábia natureza inteligente
Vai devolvendo a suave luz resplandecente
Renasce a fúria do gigante verde-mar

E as lamparinas que mostravam os possessores
Vão se apagando e vão mostrando os pescadores
Que vão remando para à terra retornar

J.G.Ribeiro

Imagem: Google

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Os contrastes da nossa era.


 

              Elogiável a decisão do novo prefeito da capital gaúcha de retirar das ruas o imenso contingente de crianças pobres, abandonadas à própria sorte. Resta-nos, no entanto, almejar que tão nobres anseios sejam coroados de sucesso. Parece-nos, à primeira vista, um empreendimento fácil de ser realizado, mas a grande interrogação que paira ameaçadora sobre a concretização do projeto é: Será que as crianças querem sair das ruas? Acostumadas durante anos e anos a perambular pelas esquinas, estimuladas pela fome, e por pais que as empurram para mendicância, é muito difícil que dentro de suas cabecinhas brilhe o desejo de mudar de vida.

Há dias, um senhor me contou um episódio interessante. Sempre ao entardecer, quando retornava à casa, encontrava em uma sinaleira o mesmo menino, sujo e descalço, olhos grandes e negros, pedindo: - Dá um dinheirinho, tio! O homem baixava o vidro do carro, apanhava no console do carro uma moeda, previamente reservada para os pedintes, e dava ao menino. Mas seus grandes olhos negros acompanhavam o bom homem até sua residência e assombravam suas noites de sono intranquilo. No café da manhã, sentado à mesa com os filhos, olhava para eles, e pensava no garoto. Naquele momento deveria estar buscando recursos para aliviar o vazio do estômago enquanto suas crianças bebiam suco de laranja, comiam cereais, frutas, pães e outras guloseimas. Depois, todos sentariam no carro com o ar condicionado ligado, os vidros fechados, as portas bloqueadas, os cintos de segurança afivelados, e rumariam para a escola. Ao meio dia, sua esposa repetiria o ritual. Os meninos levantariam de suas cadeiras na sala de aula e se precipitariam sobre o acento do carro. Certamente, nesse mesmo instante, o garoto de olhos negros estaria saltitando ao sol entre a profusão de carros da cidade. À tarde seus filhos seriam levados à aula de inglês ou caratê, e se precisassem comprar algum material escolar a mãe providenciaria. Saírem desacompanhados para qualquer atividade, nem sonhar.  E o garoto de olhos negros continuaria saltitando sob o sol ou sob a chuva.

          Tanto pensou, tanto traçou paralelos que resolveu tomar uma decisão, forte e corajosa: Faria tudo o que pudesse para mudar o destino daquela criança. Entrou no carro, dirigiu até o lugar onde sempre encontrava a criança e acenou para ela. Depois de o garoto se aproximar, perguntou-lhe onde morava; queria falar com seus pais.

Enfim, com a licença dos genitores, trouxe o menino para sua casa, deu-lhe roupas novas, ensinou boas maneiras, matriculou-o numa escola. Deu-lhe carinho, amor e uma vida digna.

Seis meses depois o garoto desapareceu. Deixou um bilhete dizendo que sentia falta das ruas, que não conseguia suportar uma vida organizada, preferia ser pobre, mas livre.

E assim o bondoso cidadão sentiu-se num dilema. Passou a questionar a terrível realidade brasileira. A total falta de segurança no país mudara os hábitos da maioria das famílias. Seus filhos eram prisioneiros na própria casa. Há muito tempo tinham perdido o direito de ir e vir. Estavam sendo criados dependentes dos pais, sem possibilidades de liberar sua energia criativa. Não podiam andar de bicicleta na calçada, nem sequer sabiam brincar na sarjeta aproveitando as enxurradas das tardes de verão. Viviam presos numa frágil redoma de vidro, olhando televisão e brincando com computadores, e por isso talvez se tornassem  mais infelizes do que o garoto de olhos negros, que vivia solto nas ruas, mas preso pelos grilhões da miséria.

       Quais serão, daqui a vinte anos, os questionamentos das crianças?

Marilene Vargas

Imagem: Google

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Pedaços de Paraíso


Aqui no Sul onde habito
Vislumbro todo o infinito
Meu céu de estrelas coberto
Cada dia mais florido
Tem um jardim colorido
Que o longe parece perto

Nosso rancho é uma graça
Quem aqui na frente passa
De vez em quando me diz
Com um sorriso no rosto
“Só gaúcho de bom gosto
Consegue ser tão feliz”

Abro a janela do fundo
Vejo a metade do mundo
Bonito sol do poente
Sempre que me dá vontade
Miro a mais bela metade
Pela janela da frente

Esta beleza que pinto
Existe sim porque sinto
Respondo com meu sorriso
Nossos desejos pequenos
Têm mais amor porque temos
Pedaços de Paraíso.

W. F. Aquino
Imagem: Google

domingo, 28 de abril de 2013

Irmão



Irmão é luz que ilumina a minha face
Seja ele pobre ou seja rico eu quero ver
Irmão de todos sem escolha eu quero ser
Para crescer diante do mundo onde se nasce

O meu carinho a todos dou com liberdade
Quero louvar ao Pai Divino e Criador
Que nos gerou com muito afeto e muito amor
Para vivermos numa vida de amizade

Quero aos irmãos sem cerimônia perguntar
Porque se agridem e não podem se amar
Se fomos todos feitos pela mesma Mão

Irmãos são todos que nasceram nesta terra
Quero viver sem o fantasma de uma guerra
Num mundo novo mais fraterno e mais irmão

J. G. Ribeiro

Imagem: Google

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Max



Não posso dizer que eu fui um homem forjado por belas vitórias. Na verdade, meus momentos de maior êxito sempre foram quando eu contava os meus maiores fracassos. Na maioria das vezes eram fatos engraçados e geralmente beiravam o surreal. Surreal não no sentido de grandioso, bem longe disso. A última vitória pessoal na minha lembrança tinha ficado tão longe que nem havia mais cabimento citá-la.

Eu tinha me aceitado como perda total não quando me dei conta de que há anos eu estudava para me formar no que eu não queria e trabalhava onde eu não gostava, ou quando vi meu círculo de amizades reduzido ao zelador e ao barbeiro. Foi quando a Natália me abandonou, e não foi bem a falta dela em si, mas o fato de ela ter levado a minha coleção do Surfista Prateado junto.

 Eu havia perdido as últimas referências do prazer de viver. Sexo e quadrinhos.

Naquela tarde todas essas coisas me vieram à mente em um segundo, por isso achei muito irônico e até absurdo quando o estranho me disse:
- Sua alma é importante para nós.

- Pfff. –Dei uma assoprada com um sorriso de canto de boca. – Olha só, não me leva a mal, mas eu não tenho muito o que discutir sobre religião.

- Em absoluto isso é sobre religião. Estamos falando de negócios aqui.

- Bem, ultimamente tem sido difícil distinguir negócios de religião.

- De fato. Mas, quanto mais religioso seu trabalho parecer, menos credibilidade seu negócio tem. Então deixe-me começar de novo, ok? Muito prazer, Jaime, meu nome é Pontes. Sou um “caça-talentos” – disse ele, fazendo aspas imaginárias – e quero oferecer-lhe uma oportunidade.

Pontes era um sujeito que apareceu do nada, aparentava ser de meia-idade, bem apresentável, vestia um terno branco e era de estatura média, cabelos mais para escuros do que para loiros. Eu estava arrependido de estar naquela situação e já estava saindo da mesa com uma desculpa qualquer quando os pastéis e a coca chegaram. A fome puxou-me pelas pernas e eu me sentei novamente.

- Não se acanhe, coma o seu pastel ou eu comerei os dois. – Ele tinha uma facilidade para sorrisos amarelados e convencionais de final de frase.

- Bem, você ia dizendo que é um caçador de almas, não é? Isso não é algo tipo caça-fantasmas?

- Rá. – Deu uma gargalhada seca e sutil como um corte de um serrote. – Você é bem espirituoso, gosto disso, ponto pra você. Esqueça essas apresentações tolas. Responda-me uma coisa, seja sincero, é imperativo que você responda com sinceridade. Pode fazer isso?


- Sim, posso. – Falei enquanto me agarrava a um pastel.
- Pois bem, diga-me o que você faria se eu te desse hoje uma oportunidade de mudar de vida, tornar-se algo que você sempre desejou ser. – Pontes estava com os cotovelos em cima da mesa e as mãos cruzadas na altura do queixo como um terapeuta que acabou de dizer “fale mais de sua droga de vida”.

- Eu faria é nada. Não existem oportunidades que caem do céu. – E tomei um gole de coca, batendo o copo vazio na mesa como se tivesse entornado uma especiaria etílica de beira de estrada.

- Exatamente, meu caro – falou, descruzando as mãos e apoiando apenas o indicador direito em cima da mesa – Essa oportunidade que estou oferecendo não veio do céu.

Eu achei o gesto bem malicioso e fingi gostar da piada. – Ah, tá bom, me deixa adivinhar, você é o Diabo e quer comprar minha alma, é isso? E quer comprá-la com pastéis? Quantos mais vai me oferecer? Manda descer mais e vamos conversar. – Eu ri com um humor tão falso quanto a calabresa do pastel.

Sorriso amarelo. – Olha, é você quem colocou religião no assunto. Eu não iria por aí, mas se esse é o caminho que entende melhor, então vamos lá. Não, eu não sou o Diabo, mas represento alguém que poderíamos dizer que não se encaixa nos padrões “divinos” e que é equivocadamente visto por alguns atos mal interpretados como “O Diabo”. E sim, ele está interessado nos seus talentos.

- Olha, Pontes, já que tu pediu sinceridade, eu vou ser sincero. Estou aqui só pelo pastel e a Coca. Assim que eu terminar eu vou me levantar e vou embora, e sem vender nada pra ninguém porque eu não acredito em Deus ou no Diabo, então até lá pode falar o que quiser.

- Rapaz, não acreditar não é problema porque nós acreditamos em você e isso faz toda a diferença. Diga um sim para você mesmo e então me deixe proporcionar a você algo para fazer a sua vida valer a pena.

- Oh, Pontes, eu sei que tu vai pagar esse lanche e agradeço, mas isso não lhe dá o direito de falar da minha vida. Do jeito que está falando tá parecendo que a minha vida é uma merda.

- Jaime, eu não ofereceria essa oportunidade para qualquer um, a nossa seleção não é aleatória. Nós conhecemos você muito bem.

- Espera aí, tem me espionado?

- Não. Nós temos observado, e bem de perto.

- Ah, ok, então fale um pouco sobre a minha interessante vida.

- Agora mesmo. – Ele colocou sobre a mesa uma maleta de couro marrom que parecia ter vindo direto dos anos 30 e tirou dela um calhamaço de papel, botou o dedo em uma linha qualquer e começou a dizer: – Blábláblá, Jaime, filho único de pais já falecidos, desenhista na adolescência, não desenha mais, músico aos 18 anos, nunca teve uma banda, não tem contato com familiares, vive sozinho desde que sua namorada fugiu com seu colega de serviço. Isso é embaraçoso, Jaime, eu posso continuar, e você sabe que isso só piora.

- Escuta, foi a Natália quem te mandou? Só pode ser, diga a ela que quero as minhas revistas de volta.


- Eu conheço a Natália muito bem também, afinal, quando nós o conhecemos ela estava com você, mas ela não está envolvida nisso. O fato é que, se chegarmos a um acordo aqui, você mesmo terá colhões para ir buscar as revistas e talvez até mesmo dar um último trato nela e até conversar mais de perto com esse seu colega que a roubou e de quem você senta bem à frente no trabalho. Aliás, trabalho é algo com que você não precisará mais se preocupar.

- Espera aí, eu vou ganhar dinheiro nesse treco?

- Acho que agora eu consegui chamar a sua atenção. Vamos encurtar, ouça a minha proposta sem compromisso, se achar que não dá, eu pago o seu lanche e você pode ir para o seu trabalhinho com seu coleguinha. Ok?

- Pode ser. Já que eu não vou pagar a conta mesmo.

- Pois bem, eu represento alguém que financia sonhos. Investe em sonhadores. Ele realiza desejos. Entretanto, ele não é um ser caridoso. Como eu disse, isso são negócios, e negócios são sempre duas partes beneficiadas. Talvez, em alguns casos, uma parte mais beneficiada que a outra; afinal, nem sempre se faz um bom negócio. Mas não é esse o mérito da questão. De um modo bem grosseiro, é como uma casa de penhores. O cliente penhora o seu bem e o investidor a quem represento banca o seu sonho, é uma troca, negócios estão baseados em troca entre duas partes.

- Ah, tá, por que não falou antes? Isso é hipoteca, agiotagem e coisa assim.

- De fato. Pode ver dessa forma também, você é bem objetivo, gosto disso. E, sendo objetivo também, nossa moeda de troca não é dinheiro ou bens materiais. É como você disse, é alma.

- Então você está aqui para comprar a minha alma de fato?

- Exato. E, fechando negócio, quando sair por aquela porta será aquilo que sempre quis ser.

- Humm. Interessante, então vou sair daqui um astro de rock milionário?

- Bem, não exatamente. Primeiro, quando te disseram que você não tinha talento pra tocar, de fato não era uma mentira. E segundo, se eu te tornasse milionário hoje com toda a sua aptidão para administração, você estaria pobre antes do final de semana. Tenho que deixar claro, milagres é com a concorrência. E não quero ser antiético, mas, caso a concorrência te atenda (o que é raríssimo), o pós-vendas deles é horrível.

- Então vou ser um arqueólogo aventureiro? Eu sempre quis isso também – não havia outro caminho senão o deboche.

- Jaime, ainda não terminei a proposta. Ouça. A abordagem que estou fazendo não é para um futuro cliente, e sim para um futuro colaborador. Uma mera questão de perfil, você pode ser colaborador e não um cliente.

- Então eu ainda continuo um empregado, que ótimo negócio. Pensei ter ouvido tu dizer que eu seria o que eu sempre quis ser.

- Sim, e será. Deixe-me falar sobre a sua função. Nosso “empregador” faz o primeiro investimento, depois o nosso cliente entra com a contrapartida. Ora, algumas vezes nos enganamos com o caráter de alguns clientes que não querem cumprir a sua parte na negociação. Mas isso é mais normal do que você imagina, entretanto é normal também efetuarmos a cobrança. E é aí que você entra.

- Ah, sim. Então serei o cobrador do inferno batendo de porta em porta dizendo “Olá, vim buscar sua alma”?

- Não. Há procedimentos para isso, escute. SALÁRIO – aumentando o tom de voz – não temos um fixo. Entretanto, você sempre terá no bolso a quantia de que precisar. Mesmo que esteja sem nada na carteira, sempre que colocar a mão no bolso, a quantia estará lá, exata. É algo que vem a calhar, pois o seu carro bebe muito.

- Mas eu não tenho carro.

- Pois agora tem. Benefícios. Enquanto trabalhar conosco, não terá problemas de saúde. A menos que você comece a fumar: nossos clientes fumam, colaboradores não. Fique longe dos cigarros e viverá muito mais do que seus avós. Ah, já ia esquecendo, esse nosso plano de saúde não tem carência, o que é raro hoje em dia.

- Tá tudo muito bonito, mas me diz quando vai chegar a parte de ser “tudo o que eu desejava ser”?

- Acalme-se, ainda não falei todos os benefícios. Você atuará à margem da lei. Se por acaso for preso, será solto no mesmo dia; se alguém prestar queixa, nunca será intimado. Temos influências nos mais altos escalões.

- Isso quer dizer que vocês têm bons advogados, então? Sempre imaginei que advogados fossem a representação do Diabo na terra, agora eu tenho certeza.
- Ah, sim, departamento de marketing falho. Não está sendo fácil reverter essa publicidade negativa. Mas, enfim, vamos ao que te interessa. O que vamos lhe proporcionar é algo que vem a calhar com a nossa necessidade. Precisamos de um cobrador e é isso o que você será.

- Continuo discordando.

- Ahhh. Pare e pense: você nunca pensou em ser um cara mal-encarado que anda em um V8 preto, escondendo uma Remington 870 cano serrado debaixo da jaqueta de couro e que mete o pé na porta de quem lhe cruza o caminho?


- Não. Nunca.

- Como não? Você desejou isso, sim. Já faz um tempo que não pensa nisso, mas está aqui, no nosso relatório. Não há erro: você quer isso, sim.
- Você é maluco, qualquer um que viu a Sessão da Tarde pensou isso. Eu tinha o quê? Nove? Dez anos?

- Não seja modesto, Jaime, somente as crianças têm os desejos mais verdadeiros. Quando você cresce, tudo o que você possa querer é fruto de tendências, e isso não é nada sincero. Quando você desejou, estávamos lá e desde então o observamos.

- Você é maluco. Vai me dar um contrato para assinar com sangue também?
- Isso é folclórico e anti-higiênico. Olhe ali do outro lado da rua – disse, apontando pela janela. – Ali, aquele Maverick V8 preto fosco. É seu. Pode ir lá conferir, sem compromisso. No porta-luvas tem a lista de nomes dos devedores. Na verdade não é bem uma cobrança, você faz parte do ultimo estágio, vai executar a dívida, é fácil e vai entender quando abrir o porta-luvas, tá tudo lá dentro. O que me diz?

- O que é executar a dívida?

- Ora, Jaime, quando você não paga a hipoteca da casa, o que o banco te toma? Nosso negócio são almas, então é só somar dois mais dois. Parece algo chato de fazer, mas depois de começar você vai adorar. Vá até lá, o carro está aberto, abra o porta-luvas e pense. Se quiser encarar, vire a chave e então nosso contrato estará assinado. E esta é a minha proposta, espero que venha trabalhar conosco. Agora, se me der licença, eu preciso ir, tenho mais duas entrevistas para fazer.

- Isso tudo é uma maluquice.

- Talvez seja, Jaime, talvez seja, mas de que vale uma vida inteira sem sequer um momento de loucura? Ah, a propósito, te aconselho a mudar o seu nome. Nada pessoal, mas seu nome não condiz com a função. Caso queira mudar o nome, mude antes de virar a chave, senão será uma burocracia dos infernos. Agora seja gentil e pague a conta.

- Ei, falei que não tenho grana.

- Homem de pouca fé. – Pontes fechou a mala, saiu por entre as mesas e bateu porta atrás de si. Desde então, nunca mais o vi.

Na saída do bar o atendente gritou – R$ 8,50 e foi exatamente isso que eu tirei do bolso. Atravessei a rua e receosamente entrei no V8. No porta-luvas havia uma lista com muitos nomes e endereços. Também ela estava ali, linda, de cano duplo e serrado com muitos e muitos cartuchos. Eu estava tomado por uma sensação que nunca havia sentido, sentia-me elétrico, como se todas as minhas terminações nervosas estivessem a todo vapor. Sentia-me seguro. Peguei-me procurando o nome da Natália na lista. Não sei explicar o que senti ao não encontrá-la ali. Minha vida sempre foi um barco à deriva, o máximo que poderia acontecer seria afundar. Virei a chave em um único movimento, sem pensar. Nada aconteceu além de o motor começar a trabalhar. Soltei o freio de mão, engatei a primeira e logo uma segunda, dobrei na próxima esquina, logo veio a terceira e a quarta marcha. Acomodei-me melhor no banco e finalmente não me sentia oprimido depois de muitos anos, sem definir um trajeto apenas deixei-me relaxar com a música que vinha do motor enquanto o carro deslizava na avenida principal naquele fatídico entardecer.

Fábio Monteiro

Imagem: Google